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		<title>um experimento</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Mar 2009 19:56:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caio Danieli</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A realização do projeto MULHERES DO POÇO foi um desafio, uma experiência. Mais que isso, um aprendizado. Quatro jovens, dois recém-saídos da Universidade e dois quase por sair, se dispõem a montar um projeto de cunho social em uma comunidade em que não vivem. Como nos aproximar dessa comunidade? Como despertar o interesse das pessoas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mulheresdopoco.wordpress.com&amp;blog=1616386&amp;post=160&amp;subd=mulheresdopoco&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A realização do projeto MULHERES DO POÇO foi um desafio, uma experiência. Mais que isso, um aprendizado. Quatro jovens, dois recém-saídos da Universidade e dois quase por sair, se dispõem a montar um projeto de cunho social em uma comunidade em que não vivem. Como nos aproximar dessa comunidade? Como despertar o interesse das pessoas pela nossa proposta? Como tornar as atividades programadas prazerosas e não deixar este sentimento enfraquecer? Como fazer da nossa proposta algo diferente de outras das quais eles já tenham participado? E depois, o que vem? Para nós essas questões eram fundamentais e não poderiam sair do foco das nossas reflexões de maneira alguma, pois a partir delas seriam traçadas as ações que construíriam a face conceitual da nossa proposta. Durante três meses (de setembro a dezembro de 2007) fizemos uma grande experimentação das possibilidades da utilização da arte como meio para despertar a auto-estima, a conscientização histórica, social e política dessas mulheres.<span id="more-160"></span><br />
Quando tivemos o primeiro contato com a comunidade do Poço da Draga descobrimos que a comunidade estava em meio a uma disputa política pelo controle da associação de moradores. Dois grupos com visões diferentes disputavam o poder: um privilegiava projetos e ações voltadas para a formação profissional dos moradores e outro que tinha na formação humana sua base de ação. O primeiro grupo detinha o poder (presidia a associação), o segundo realizava suas atividades de maneira paralela e lutava para chegar ao poder. Entramos na comunidade através de um contato realizado com o segundo grupo, mais afeito à natureza da nossa proposta, sendo nossa primeira grande tarefa a de desviar dessas diferenças e convencer os grupos de que o projeto seria importante nessas duas frentes e que as disputas entre os grupos apenas enfraqueceriam a comunidade e prejudicariam as ações do projeto. Um possível desdobramento profissional e gerador de renda foi o meio pelo qual conseguimos apaziguar as diferenças e ter público para as atividades. Tivemos total apoio da associação de moradores que nos cedeu o espaço para realização das oficinas e tivemos um grupo eclético de mulheres partidárias de ambos os lados.<br />
O prédio da Associação dos Moradores do Poço da Draga (AMPODRA) fica no inicio da Rua dos Tabajaras, é um prédio antigo e mal conservado que pertence à Prefeitura. Diversas atividades ocupam este espaço durante a semana como aulas de capoeira para crianças e reuniões do grupo Narcóticos Anônimos. Todas as datas e horários foram, negociadas de modo a não prejudicar as outras atividades e em acordo com nosso público que desse modo pode comparecer aos encontros com freqüência surpreendente para nós. Para realização do projeto foram compradas 30 (trinta) cadeiras plásticas que ao final foram somadas ao patrimônio da Associação por meio de doação . Foi realizada também a manutenção das instalações elétricas do prédio assim como a troca da iluminação do espaço-ateliê.<br />
Despertar o interesse das mulheres do Poço da Draga pelo projeto foi uma das tarefas seguintes. Como na maioria das comunidades onde grupos desenvolvem trabalhos sociais fundamentados em práticas artísticas, essas mulheres tinham uma visão viciada: “lá vem mais um curso pra gente se distrair um pouco”. Elas não conseguiam vislumbrar uma possibilidade real de uso ou funcionalidade desse tipo de atividade. Assim o significado dos trabalhos não conseguia ultrapassar a superfície. A existência, no projeto, de uma possibilidade de associação ou cooperação entre os participantes para produção de bens de consumo que poderiam gerar renda foi um fator agregador de valor que despertou o profundo interesse nos participantes.<br />
Manter o maior número de participantes nas oficinas até seu fim era mais um desafio. Como fazer para que um grupo de mulheres com mais de 30 anos, com casa, família e seus afazeres pessoais reservassem um tempo do seu dia para atividades artísticas? A estratégia utilizada foi o caráter lúdico das oficinas que tinha como fundamento a abordagem de temáticas específicas, como leitura, redação, História da Arte, Teoria das Cores entre outras, de forma indireta e prazerosa, não deixando o estranhamento ou o não-domínio de algum assunto ou técnica afastar o público.<br />
Outro elemento que diferenciou as atividades do projeto foi a tomada conjunta de decisões entre facilitadores e participantes. Todos os horários a datas das atividades foram negociados e acertados com os participantes de modo benéfico à maioria e deixando claro seu papel ativo nas decisões que lhes afetavam diretamente. Ainda nesse campo, o aproveitamento e a valorização dos saberes individuais dentro do grupo foi outro fator diferencial e fundamental para manutenção do público durante a execução do projeto. A prospecção do saberes dessas mulheres e sua valorização através do uso e de seu repasse dentro do grupo foi estratégia importante que fortaleceu a auto-estima e os laços de amizade dentro do grupo. Quem sabia estórias locais dividiu com os outros, escreveu, falou. Quem costurava “fechou” bolsas para as colegas e ensinou a outras. Quem cozinhava forneceu o lanche (fato que fez circular o dinheiro do projeto dentro da própria comunidade) . Quem sabia desenhar um pouco ajudou os outros nessa tarefa. Cada um tinha um saber e foi valorizado por isso, resgatando então o respeito individual e coletivo.<br />
Outra questão que exige reflexão é o “pós” projeto. Que responsabilidades assumimos ao criar laços afetivos, pessoais, com essas mulheres e que possibilidades se colocam diante do grupo para a continuidade independente das suas atividades. Devemos continuar a trabalhar com este grupo estabelecido desenvolvendo outras atividades ou formar um novo dando oportunidades a outros de viver a experiência?<br />
O grupo formado decidiu não assumir de maneira independente a produção coletiva de bens de consumo (bolsas, fronhas, saias, camisetas) de modo que não pudemos mobilizar outras esferas de poder (SEBRAE, CEART, Secretaria de Desenvolvimento Social do Município ou do Estado) que poderiam auxiliar o grupo nessa etapa. Um dos objetivos do projeto era a formação desse grupo que poderia criar uma cooperativa de produção de modo a gerar uma renda complementar nas suas casas. Ao encontrarmos o grupo percebemos a necessidade de trabalhar questões muito mais básicas e anteriores às questões diretamente ligadas à estética ou a produção desses bens. Era necessário trabalhar a auto-estima dos indivíduos e do grupo, era importante criar o sentimento de querer e do poder realizar, era preciso restabelecer a voz dessas mulheres, a voz da comunidade. Seu orgulho de falar para o mundo, sua dignidade. Dentro das circunstâncias encontradas esses foram os elementos que acreditamos serem primordiais para nosso trabalho e os que foram trabalhados. Junto com o despertar da sensibilidade estética tentamos despertar a vontade e o orgulho de realizar. Algumas das participantes realizam trabalhos de pintura sobre tecido e bordado para atender a uma clientela pessoal. Talvez pela necessidade desse trabalho em uma instância anterior a formação do grupo cooperado tenha se concretizado e espere uma oportunidade posterior.<br />
Outro fato importante de se relatar foi o insucesso na realização da oficina de fotografia artesanal. Acreditamos que um dos fatores que contribuíram para isso foi a necessidade existente de que os encontros se realizassem durante o dia já que a luz é pressuposto imprescindível para realização das fotografias. O grupo decidiu, com muita dificuldade, que os encontros aconteceriam aos sábados durante a tarde já que durante a semana isso era inviável. Nos encontros iniciais os participantes construíram câmaras obscuras para compreender o funcionamento do aparato fotográfico. Esse momento foi muito marcante entre todos, pois puderam compreender como ocorre a formação de uma imagem fotográfica. Nos encontros subseqüentes elas construíram suas câmeras pessoais (técnica Pinhole) e fizeram suas primeiras experiências. O resultado ruim dos primeiros experimentos (todas as fotos “queimaram”) parece ter desestimulado as participantes. Junto a isso a inexperiência do facilitador, que não conseguiu restabelecer o ânimo das mulheres, também contribuiu para o resultado negativo dessa atividade. Somamos a isso o cansaço acumulado de uma semana de jornada dupla dessas mulheres que nos finais de semana aproveitavam para descansar, ter lazer ou visitar parentes. Após os primeiros resultados negativos a freqüência caiu gradativamente até que em conjunto foi decidido cancelar a oficina que deverá ser realizada com uma técnica menos delicada e em outro momento observando e antecipando os erros acima citados.</p>
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